quarta-feira, agosto 20, 2003:
"- Mil e trezentos e quarenta e nove - começou ele.
- A morte negra - respondi. Eu sabia alguma coisa sobre história, mas não entendia o que a peste negra podia ter a ver com o tema do acaso.
- Ok. - disse ele. E continuou: - Você deve saber que metade da população da Noruega sucumbiu à peste. Só que existe aí uma coisa que nunca falamos.
Quando ele começava assim, eu já sabia que ia ter de ouvir uma longa explanação.
- Você tem consciência de que naquela você tinha muitos milhares de antepassados? - perguntou meu pai.
Balancei a cabeça em sinal de dúvida em relação ao que ele havia dito. Como aquilo podia ser possível?
- Todos nós temos um pai e uma mãe, quatro avós, oito bisavós, dezesseis tataravós e assim por diante. Se você for fazer as contas até voltar a 1349, vai chegar a um número bem grande.
Concordei.
- Então veio a peste. A morte rondava os povoados, um a um, e as crianças eram suas maiores vítimas. Em algumas famílias morreram todas as crianças; em outras, uma ou talvez duas conseguiram sobreviver. Naquela época, Hans-Thomas, muitas centenas dos seus antepassados eram crianças. E nenhum deles morreu.
- Como é que você pode ter tanta certeza disso? - perguntei intrigado.
Ele deu uma tragada no cigarro e continuou:
- Porque você está bem aqui do meu lado, olhando para o mar Adriático.
(...)
- A probabilidade de nenhum de seus antepassados ter morrido ainda criança era uma para muitos bilhões - prosseguiu ele. E a partir daí suas palavras começaram a jorrar como a água de um dique que se rompe: - Pois não estamos falando aqui apenas da peste entende? Todos, todos os seus antepassados cresceram e tiveram filhos em épocas que foram palco das mais terríveis catástrofes naturais e que, além do mais, possuíam índices assustadores de mortalidade infantil."
- trecho de "O Dia do Curinga" de Jostein Gaarder
Aí está porque eu não acredito no acaso.
mensagem de Tranquilo as 12:49 AM -
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