quarta-feira, outubro 22, 2003:
Essa noite foi a pior em meses.
Voltei da PUC com a minha mãe. No carro começamos a discutir sobre um assunto qualquer, que acabou levando aos meus objetivos. Me senti voltando no tempo...
Meu fracasso, minha falta de vontades total e absoluta. Minha falta de perspectiva. Meu modo 'inadaptado' de ser. Minha irresponsabilidade e minha falta de motivação. Meu vazio.
Discutimos até chegar em casa. Discutimos no quarto dela. Depois desci as escadas e fiquei ouvindo ela soluçar. Que tristeza deve ser pra uma mãe, saber que o filho é um fracasso.
Talvez a tristeza não seja saber, porque isso ela sempre soube, mas ouvir isso da boca do próprio filho. Ela enxerga as coisas diferente de mim, e não posso fazer nada quanto a isso. Durante a conversa, várias vezes eu me peguei pensando o quanto ela é estúpida e 'limitada'.
Deja-vu.
Quando eu estava com a Leticia eu tinha os mesmos acessos de inutilidade. As mesmas crises existenciais. Pelo menos eu não tava sozinho. Eu tinha alguém pra ouvir meus dramas e aplacar meu choro. Hoje não tive.
Não aguentei ouvir minha mãe soluçar. Saí de casa. Andei um pouco até o Funchal, e entrei num barzinho. Acho que as pessoas me olharam estranho, com essa pinta de pirralho. Mas dane-se. Entrei e bebi umas cervejas...
Depois de quase uma hora, quando eu vi que a chuva tava apertando eu resolvi voltar pra casa. No caminho, eu liguei pra Pazneves. Eu sabia que ela não ia me entender, mas eu tava tentando evitar ligar pra Louise. A Louise tem doutorado em crises existenciais, quanto mais relacionadas aos futuros pessimistas.
A Pazneves não ia me entender... dei um jeito de desligar rápido. Então liguei pra Fernanda, mas desliguei assim que o telefone ameaçou chamar. Não queria falar com ela. Além de ela não me entender, ela ia ouvir mais um choro, mais uma bebedeira, e mais uma demonstração de fraqueza... humilhante.
Eu queria ligar pra Louise. A chuva aumentou proporcionalmente a coceira no meu dedo. Várias vezes digitei o número, mas sem apertar o send. Teve uma hora que o desespero venceu o medo e liguei pra ela. Ela desligou na minha cara. Acho que fez bem. Não sei se eu teria a mesma coragem que ela teve.
Cheguei em casa e liguei pra Pazneves. Eu disse que ia dormir, amanhã falava com ela. Não quis que ela ficasse preocupada. Peguei o restinho de Martini e consegui beber sem vomitar desta vez.
Mas tanto faz. Amanhã já vou ter esquecido essa antiga crise e continuarei vivendo como sempre. Eu sempre deixo pra lá. Eu nunca mudo. Isso acontece há tanto tempo que nem me lembro mais.
The Ataris - In This Diary
mensagem de Tranquilo as 11:21 PM -
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